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sábado, 21 de fevereiro de 2015

O livro de Salmos








Versos Líricos Poéticos 
O gênero lírico consiste na expressão poética dos pensamentos e sentimentos pessoais do autor traduzidos em ritmos análogos à sua emoção. O lirismo impregna a saga histórico-religioso dos Hebreus. Eram preparados para ser cantados ou salmodiados.

O Livro de Salmos 
    Os salmos apresentam a maioria dos tipos de poesia lírica:

. Odes:
    Composição poética em que se louva uma pessoa ou coisa, divida em estrofes semelhantes entre si (1 Sm 18:7). Pode ser:
. Sacra: Que segundo as circunstâncias pode se chamar de:
. Salmo: Louvores a Deus;
. Hino: Canção religiosa, canto em louvor a pátria, ou poesia acompanhada de música, em honra a uma nação, de um monarca, de uma causa. Davi costumava cantar hinos a Deus celebrando as obras da criação (Sl 8:1; 84; 122; 126); 
. Epódica: Ocupa-se de matéria filosófico-moral (Sl 53; 62; 73; 77);
. Cânticos: Distribuído por todos os salmos. Maria, exalta ao Senhor com um belo canto genelíaco (composição lírica que celebra o nascimento ou aniversário de uma pessoa (Lc 1:46-55).
. Elegias: Pequeno poema consagrado ao luto e à tristeza (Sl 126; 137);
. Écloga ou égloga: Poesia pastoril. Diálogo poético em cenário rural, entre pastores ou camponeses. Nos salmos não temos esse diálogo, mas são constantes as cenas pastoris e campestres (23);
. Intercessões: Cântico oratório que se intervém a favor de alguém (67; 72; 74).

                              

                                       Observações Hermenêuticas sobre os Salmos 

A exegese de salmos deve efetuar-se tendo presente algumas observações especiais:

1- Ter em consideração o gênero do salmo. Se é um hino de louvor, uma súplica, um cântico de ações de graças, lamentação ou imprecação. Essas formas genéricas da composição salmódica alteram por completo o método de interpretação.

2- Levar em conta a conexão histórica do salmo. Neste caso, precisa-se determinar a autoria do salmo, o que nem sempre é possível, pois as epígrafes, apesar de fazerem parte do texto hebraico, são adendos dos editores, e não dos autógrafos originais. Isto não quer dizer que sejam sem fundamentos. Um dos casos de salmos com títulos discutíveis é o 34 (cf. 1 Sm 21:10-15). Os salmos 3, 7, 18, 30, 34, 51, 52, 54, 56, 57, 59, 60, 63, 142, possuem indicação de autor e as circunstâncias históricas do autor ajuda na interpretação.

3- Deve-se prestar atenção ao estado psicológico e sentimental do autor. Não basta apenas conhecer as circunstâncias em que a composição foi escrita, mas também o efeito psicológico e sentimental que as circunstâncias produziram no salmista: abatimento, depressão, temor, reação fervorosa nascida da fé, clamor amargo ou súplica de esperança, insegurança ou certeza, descrição de sua culpa ou de sua inocência.

4- Analisar os conceitos teológicos do autor comparando com a teologia de seu tempo, baseado na revelação que dispunha.
Ou os conceitos dos salmistas se adequaram à verdade revelada, ou são frutos de seus problemas existenciais, ferida de alma, ou tribulação? As lamentações do salmo 44 são bons exemplos.
Para que o salmista repugna o caráter de Deus no verso 23.
Outro exemplo é o 77:9,10, o qual evidentemente era uma afirmação falsa, como o próprio salmista atesta no verso 11.

5- Deve-se interpretar os salmos imprecatórios segundo natureza intrínseca e de acordo com o contexto teológico da época.

Sidlow Baxter admite que os salmos imprecatórios são "como espinhos agudos num ramo de rosas". "No Saltério", diz Baxter, "ocorrem aqui e ali certos salmos expressando ira veemente e imprecações contra inimigos e malfeitores"[16]. Não sendo "um dos maiores problemas do Velho Testamento [17]" (Clyde Francisco). Entretanto, as palavras e ditos austeros não são implicações somente das Escrituras veterotestamentárias. O novo Testamento também inclui certas palavras ásperas (tais como Mt 13:50; 23:13-33; 25:46; Lc 18:7; 19:27; At 13:8-11; 2 Ts 1:6-9; Ap 6:10; 18:4-6). Essas passagens ensinam plenamente que todos colhem as consequências de sua escolha (Mt 7:22,23; 2 Co 5:10; Gl 6:7). Percebe-se então, que as palavras rudes e austeras não são sintomáticas apenas no Antigo Testamento, pois o Novo também exacerba expressões imprecatórias. Baxter afirma que a solução encontra-se em um princípio básico hermenêutico: a primeira menção de qualquer assunto fornece a chave de tudo o que for dito sobre ele posteriormente. O primeiro versículo dos salmos imprecatórios fornece a chave de todos os que se seguem: "Declara-os culpados, ó Deus! Caiam por seus próprios planos. Rejeita-os por caus de suas muitas transgressões, pois se rebelam contra ti" (Sl 5:10). Seguindo, a abordagem hermenêutica, compreendemos que:
    a) Essa imprecação é contra transgressores rebeldes, e é contra eles somente poque são o que são, como vemos na última oração: "...pois se rebelaram contra ti". Em outras palavras, a imprecação é contra malfeitores ímpios como tais. As palavras de Davi nesse versículo são as de um homem que vê o pecado em sua natureza real, como uma rebelião contra Deus. Estas palavras são de um homem que se identificou com Deus contra o pecado, e que odeia o pecado pelo fato de Deus também odiá-lo. É a disposição mental estabelecida no Salmo 139: "Não aborreço eu, Senhor, os que te aborrecem? e não abomino os que contra ti se levantam? Aborreço-os com ódio consumado: para mim são inimigos de fato" (vv. 21,22 ARA).

    b) Como observamos o primeiro versículo dos imprecatórios, sua análise contextual recai não sobre homens simplesmente, mas sobre malfeitores. Um exame cuidadoso de todas as passagens imprecatórias revela que dois terços delas são especificamente contra os malfeitores; nas restantes, o mesmo motivo fica subentendido. Embora este não seja uma explicação que resolva todos os conflitos teológicos da questão, entretanto, apresenta justificativas hermenêuticas, pelo menos quanto ao motivo das imprecações.

    c) Corroborado com esta asseveração, não somos escusados de frisar que essas imprecações não são de explosões de iras pessoais e destituídas de justiça. O s salmista não se colocavam acima da lei teocrática, mas legislavam através dela. Urge ser observado que cerca de dezesseis salmos imprecatórios são de autoria do rei teocrático Davi.[18]


Notas:

 Hermenêutica fácil e descomplicada, p. 285, 286, 287, 288, 289.

[16] Examinai as Escrituras, vl 3, passim.

[17] Introdução ao Antigo Testamento, p. 229.

[18] Op.cit., Confira Martínez, op.cit., p. 332.