domingo, 30 de novembro de 2014
Quem eram os apóstolos?
O grupo inicial contava com doze - os onze discípulos originais que continuaram após a morte de Judas, e Matias, que o substituiu: "E os lançaram em sortes, vindo a sorte a recair sobre Matias, sendo-lhe então votado lugar com os onze apóstolos" (At 1:26). Tão importante era esse grupo original de doze apóstolos, os membros fundadores do ofício apostólico, que lemos que seus nomes estão escritos nos fundamentos da cidade celestial, a nove Jerusalém: "A muralha da cidade tinha doze fundamentos, e estavam sobre estes doze nomes dos doze apóstolos do Cordeiro" (Ap 21:14).
Poderíamos, à primeira vista, pensar que tal grupo nunca deveria ser expandido, de modo que ninguém pudesse ser acrescentado a ele. Mas Paulo claramente alega ser também um apóstolo. E Atos 14:14 chama Barnabé e Paulo de apóstolos: "Porém, ouvindo isto, os apóstolos Barnabé e Paulo...". Assim, com Barnabé e Paulo são catorze os "apóstolos de Jesus Cristo".
Depois , Tiago, o irmão de Jesus (que não era um dos doze discípulos originais), parece ser chamado apóstolo em Gálatas 1:19: Paulo conta como, quando foi a Jerusalém, ele não viu "outro dos apóstolos senão a Tiago, o irmão do Senhor." Ainda em Gálatas 2:9, Tiago é classificado com Pedro e João como "coluna" da igreja de Jerusalém. Em Atos 15:13-21, Tiago, juntamente com Pedro, exerce uma significativa função de liderança no Concílio de Jerusalém, função apropriada ao ofício de apóstolo. Além disso, quando alista as aparições de Jesus, Paulo prontamente coloca Tiago com os apóstolos:
Depois foi visto por Tiago, mais tarde por todos os apóstolos, e, afinal, foi visto também por mim, como por um nascido fora do tempo. Porque eu sou o menor de todos os apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado um apóstolo, pois persegui a igreja de Deus (1Co 15:7-9).
Por fim, o fato de Paulo escrever uma carta no Novo Testamento que traz o seu nome também está inteiramente de acordo com a autoridade que ele tinha para escrever palavras que eram palavras de Deus. Todas essas considerações combinam-se para mostrar que Tiago, o irmão do Senhor, também foi comissionado por Cristo como apóstolo. Teríamos então, quinze "apóstolos de Jesus Cristo" (os doze mais Barnabé, Paulo e Tiago).
Houve outros apóstolos além desses quinze? Pode ter havido alguns outros, embora saibamos pouco ou nada sobre eles e não tenhamos certeza de que de fato existiram outros. Outras pessoas. é claro, tinham visto Jesus após sua a ressurreição ("Depois foi visto por mais de quinhentos irmãos de uma só vez," 1Co 15:6). Desse grande número é possível que Cristo tenha designado alguns outros apóstolos - mas é também possível que não o tenha feito. Os dados não são suficientes para decidir a questão.
Romanos 16:7 diz: "Saudai a Andrônico e a Júnias, meus parentes e companheiros de prisão, os quais são notáveis entre os apóstolos, e estavam em Cristo antes de mim". Como há diversos problemas de tradução nesse versículo, não se pode chegar a nenhuma conclusão decisiva. "Notáveis" pode também ser traduzido por "notados pelos (apóstolos)". "Júnias (nome de homem) pode ser traduzido por "Júnia" (nome de mulher). "Apóstolos"aqui pode significar o ofício "apóstolos de Jesus Cristo", mas pode significar simplesmente "mensageiros" (o sentido mais amplo que a palavra tem em Fp 2:25; 2Co 8:23; Jo 13:16). Os versículos não trazem dados suficientes que nos permitam chegar a uma conclusão.
Outros nomes têm sido sugeridos como apóstolos. Silas (Silvano) e, algumas vezes, Timóteo são mencionados, por causa de 1Tessalonicenses 2:7: "Embora pudéssemos como enviados (apóstolos) de Cristo, exigir de vós...". Será que Paulo inclui Silas e Timóteo aqui, já que a carta começa com "Paulo, Silvano e Timóteo" (1Ts 1:1)?
Não é provável que Paulo esteja incluindo Timóteo por duas razões:
(1) Apenas cinco versículos antes ele diz: "... apesar de maltratados e ultrajados em Filipos, como é de vosso conhecimento" (1Ts 2:2), uma alusão aos açoites e à prisão sofridos somente por Paulo e Silas, não por Timóteo (At 16:19). Assim, o "pudéssemos" no versículo 6 não parece incluir todos os mencionados no primeiro versículo (Paulo, Silvano e Timóteo). A carta, em geral, é de Paulo, Silas e Timóteo. Mas Paulo sabe que os leitores entenderão naturalmente quem são os citados na expressão "nós", quando não inclui os três em algumas partes da carta. Ele não especifica: "nos, isto é, Silas e eu, fomos maltratados...", porque os tessalonicenses sabiam de quem ele estava falando.
O mesmo acontece em 1Ts 3:1-2, onde o "nós" certamente não pode incluir Timóteo;
Pelo que, não podendo suportar mais o cuidado por vós, pareceu-nos bem ficar sozinhos em Atenas; e enviamos nosso irmão Timóteo, ministro de Deus no evangelho de Cristo, para, em benefício da vossa fé, confirmar-vos em exortar-vos (1Ts 3:1-2).
Neste caso, o "nós" refere-se ou a Paulo e Silas, ou só a Paulo (veja At 17:14-15); 18:5).
Aparentemente Silas e Timóteo tinham ido ao encontro de Paulo em Atenas "o mais depressa possível" (At 17:15) - embora Lucas não mencione a chegada deles em Atenas - e Paulo os havia mandado de volta a Tessalônica para ajudar a igreja de lá (At 18:5).
É muito provável que "pareceu-nos bem ficar sozinhos em Atenas" (1Ts 3:1) se refira só a Paulo, tanto porque ele retoma o argumento no versículo 5 com o "eu", pronome no singular ("á não me sendo possível continuar esperando, mandei indagar o estado de vossa fé"), como porque não teria sentido falar de extrema solidão em Atenas, se Silas estivesse com ele. De fato, em 2:18, "nós" significa "eu", porque ele diz: "Por isso, quisemos ir até vós (pelo menos eu, Paulo, não somente uma vez, mas duas); contudo Satanás nos barrou o caminho". Aparentemente ele usa "nós" com mais frequência nessa epístola como uma forma cortês de incluir Silas e Timóteo, que tinham passado muito tempo na igreja de Tessalônica. Mas os tessalonicenses não teriam tido dúvida sobre quem, de fato, estava encarregado dessa grande missão aos gentios e de qual autoridade apostólica a carta principalmente (ou exclusivamente) dependia.
Assim é bem provável que Silas fosse um apóstolo e que 1Ts 2:7 indique isso. Ele era membro destacado da igreja em Jerusalém (At 15:22) e podia bem ter visto Jesus após a ressurreição e assim ter sido designado apóstolo. Mas não podemos ter certeza disso.
Entretanto, com Timóteo a questão é diferente. Assim como ele é excluído do "nós" de 1Ts 2:2 (e 3:1-2), parece que é excluído também do nós de 1Ts 2:7. Além do mais , sendo natural de Listra (At 16:1-3), e tendo aprendido sobre Cristo com sua vó e com sua mãe (2Tm 1:15), parece impossível que pudesse ter estado em Jerusalém antes do Pentecostes e tivesse visto o Senhor ressurreto, crido nele e, então, repentinamente designado apóstolo, Ademais, Paulo, ao dirigir suas cartas, sempre reserva zelosamente para si o título de apóstolo, nunca permitindo que seja aplicado a Timóteo ou a outros de seus companheiros de viagem (veja 2Co 1:1; Cl 1:1: "Paulo, apóstolo de Cristo Jesus... e o irmão Timóteo"; e Fp 1:1: "Paulo e Timóteo, servos de Cristo Jesus"). Assim, Timóteo, por mais importante que fosse sua função, não poderia ser corretamente considerado um dos apóstolos.
Isso nos deixa um grupo limitado, mas de número incerto, cujos membros detinham o ofício de "apóstolos de Jesus Cristo". Parece ter havido pelo menos quinze, talvez dezesseis, ou até outros que não foram registrados no Novo Testamento.
Todavia parece bastante certo que não houve nenhum apóstolo designado depois de Paulo. Quando alista manifestações do Cristo ressurreto, ele enfatiza a forma incomum com que Cristo lhe apareceu e liga isso à afirmação de que essa foi a "última" aparição que ele mesmo é de fato o menor dos apóstolos, indigno de ser chamado assim.
E apareceu a Cefas [Pedro] e, depois, aos doze. Depois, foi visto por mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais a maioria sobrevive até agora; porém alguns á dormem. Depois foi visto por Tiago, mais tarde, por todos os apóstolos e, afinal, depois de todos, foi visto também por mim [...] porque eu sou o menor dos apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado apóstolo (1Co 15:5-9).
Wayne Grudem
domingo, 2 de novembro de 2014
A causa da expiação
A CAUSA DA EXPIAÇÃO
Qual foi a causa última que levou Cristo a vir para este mundo e morrer pelos nossos pecados? Para encontrá-la, devemos pesquisar o assunto em alguma coisa no caráter do próprio Deus. E aqui as Escrituras apontam para duas coisas: o amor e a justiça de Deus.
O amor de Deus como uma das causas da expiação é descrito na passagem mais conhecida da Bíblia: "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu o seu filho unigênito, para todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna"(João 3:16). Mas a justiça de Deus também exigia que ele encontrasse um meio pelo qual a pena pelos nossos pecados fosse paga (pois ele não podia aceitar-nos em comunhão consigo mesmo a menos que a penalidade fosse paga). Paulo explica que essa é a razão pela qual Deus enviou Cristo para ser "propiciação" (Romanos 3:25), ou seja, um sacrifício que sofre a ira de Deus de modo que este se torne "propício" ou com disposição favorável a nós: foi "para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos" (Romanos 3:25). Aqui Paulo diz que Deus perdoava os pecados no Antigo Testamento, mas nenhuma pena havia sido paga, fato que poderia fazer as pessoas perguntarem se Deus era mesmo justo e indagar como ele pode perdoar pecados sem nenhum castigo. Será que um Deus que fosse justo de verdade poderia fazer isso? Mas quando ele enviou Cristo para morrer e receber o castigo pelos nossos pecados, fez isso "tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus" (Romanos 3:26).
Portanto, o amor e a justiça de Deus foram a causa última da expiação. No entanto, não nos ajudará em nada perguntar qual dos dois é mais importante, pois sem o amor de Deus, ele nunca teria dado nenhum passo para nos redimir, mas sem a justiça de Deus, não teria sido cumprida a exigência específica de que Cristo obtivesse nossa salvação morrendo pelos nossos pecados. Tanto o amor como a justiça de Deus foram igualmente importantes.
A NECESSIDADE DA EXPIAÇÃO
Havia alguma outra maneira de Deus salvar os seres humanos além de enviar seu Filho para morrer em nosso lugar?
Antes de responder a essa pergunta, é importante entender que Deus não tinha nenhuma necessidade de salvar ninguém. Quando nos conscientizamos de que "Deus não poupou anjos quando pecaram, antes, precipitando-os no inferno, os entregou a abismos de trevas, reservando-os para juízo" (2 Pedro 2:4), percebemos que Deus poderia também ter escolhido com perfeita justiça deixar-nos em nossos pecados, esperando o julgamento; ele poderia ter escolhido não salvar ninguém, assim como fez com os anjos pecaminosos. Assim, nesse sentido a expiação não era absolutamente necessária.
Mas uma vez que Deus , em seu amor, decidiu salvar alguns seres humanos, então várias passagens nas Escrituras indicam que não havia outra maneira de Deus fazê-lo a não ser pela morte de seu Filho. Portanto, a expiação não era absolutamente necessária, mas, como "consequência" da decisão divina de salvar alguns seres humanos, a expiação era absolutamente necessária. Essa concepção às vezes é chamada visão da "absoluta necessidade consequente" de expiação.
No jardim do Getsêmani, Jesus ora: "... se possível, passa de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres" (Mateus 26:39). Podemos estar convictos de que Jesus sempre orou de acordo com a vontade do Pai e sempre com plenitude de fé.
Dessa forma, essa oração, que Mateus se esforça para registrar para nós, parece mostrar que não era possível para Jesus evitar a morte na cruz que estava prestes a vir sobre ele (o "cálice" de sofrimento que ele havia dito que seria seu). Se Jesus estava para completar a obra que o Pai lhe destinara, e se as pessoas estavam para ser redimidas por Deus, então era necessário que ele morresse sobre a cruz.
Ele disse algo semelhante depois de sua ressurreição, quando conversava com dois discípulos no caminho para Emaús. Eles estavam tristes porque Jesus tinha morrido, mas sua resposta foi: "Ó néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! Porventura, não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua glória?" (Lucas 24:25-26). Jesus entendia que o plano divino de redenção (que ele explicou aos discípulos a partir de muitas passagens do Antigo Testamento, (Lucas 24:27) tornava necessário que o Messias morresse pelos pecados do seu povo.
Como vimos acima, Paulo também mostra em Romanos 3 que, para Deus ser justo e ainda assim salvar as pessoas, precisava enviar Cristo para receber o castigo pelos pecados: "... tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus" (Romanos 3:26). A epístola aos Hebreus enfatiza que Cristo tinha de sofrer pelos nossos pecados: "Por isso mesmo, convinha que, em todas as coisas, se tornasse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus e para fazer propiciação pelos pecados do povo" (Hebreus 2:17). O autor de Hebreus argumenta também que por ser "impossível que o sangue de touros e de bodes remova pecados" (Hebreus 10:4), exige-se um sacrifício superior (Hebreus 9:23). Somente o sangue de Cristo, ou seja, sua morte, seria realmente capaz de remover os pecados (Hebreus 9:25-26). Não havia nenhuma outra maneira de Deus nos salvar a não ser pela morte de Cristo em nosso lugar.
A NATUREZA DA EXPIAÇÃO
Considero dois aspectos da obra de Cristo: 1- A obediência de Cristo por nós, pela qual obedeceu às exigências da lei em nosso lugar e foi perfeitamente obediente à vontade de Deus Pai como nosso representante, 2- Os sofrimentos de Cristo por nós, pelos quais recebeu o castigo pelos nossos pecados e, em consequência, morreu pelos nossos pecados.
É importante observar que nessas duas categorias a ênfase básica e a influência principal da obra redentora de Cristo não é sobre nós, mas sobre Deus Pai. Jesus obedeceu ao Pai em nosso lugar, recebendo em si mesmo a pena que Deus Pai teria aplicado a nós. Em ambos os casos, a expiação é vista como algo objetivo; isto é, algo que tem influência primária diretamente sobre o próprio Deus. Apenas de maneira secundária ele se aplica a nós, e isso dá só porque houve um evento definido na relação entre Deus Pai e Deus Filho que assegurou nossa salvação.
Wayne Grudem
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