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terça-feira, 30 de agosto de 2016

A Causa Eficiente da Regeneração



A Causa Eficiente da Regeneração

Há somente três conceitos fundamentais diferentes a considerar, e todos os demais são modificações destes.

1. A VONTADE HUMANA.  De acordo com a concepção pelagiana, a regeneração é unicamente um ato da vontade humana, e é praticamente idêntica à autorreforma.
Com algumas diferenças ligeiras, este é o conceito da Teologia Liberal moderna. Uma modificação deste conceito é a dos semipelagianos e arminianos, que a consideram, ao menos em parte, como um ato do homem, cooperando com influências divinas aplicada mediante a verdade. Esta é uma teoria sinergista da regeneração. Estes dois conceitos envolvem uma negação da depravação total do homem, tão claramente ensinada na Palavra de Deus, Jo 5.42; Rm 3.9-18; 7.18,23; 8.7; 2Tm 3.4, e da verdade bíblica de que é Deus que inclina a vontade do homem, Rm 9.16; Fp 2.13.

2. A VERDADE. Segundo este conceito, a verdade, como um sistema de motivos, apresentada à vontade humana pelo Espírito Santo, é a causa imediata da mudança da impureza para a santidade. Esta era a ideia de Lyman Beecher e de Charles G. Fynney. Este conceito presume que a obra do Espírito Santo difere da do pregador apenas em grau. Ambos agem somente pela persuasão. Mas esta teoria é inteiramente insatisfatória. A verdade só poderá ser um motivo para a santidade se for amada, e o homem natural não ama a verdade, mas a odeia, Rm 1.18,25. Consequentemente, a verdade, apresentada externamente, não pode ser a causa eficiente da regeneração.

3. O ESPÍRITO SANTO. O único conceito adequado é o da Igreja de todos os séculos, de que o Espírito Santo é a causa eficiente da regeneração. Significa que o Espírito Santo age diretamente no coração do homem e muda sua condição espiritual. Não há nenhuma cooperação do pecador nesta obra. É obra do Espírito Santo, direta e exclusivamente, Ez 11.19; Jo 1.13; At 16.14; Rm 9.16; Fp 2.13. Então, a regeneração deve ser concebida monergisticamente. Só Deus age, e o pecador não participa em nada desta ação. Isto, naturalmente, não significa que o homem não coopera com o Espírito de Deus nos estágios posteriores da obra de redenção. É mais que evidente na Escritura que o faz.

Autor: Louis Berkhof
Fonte: Teologia Sistemática/ Louis Berkhof; traduzido por Odayr Olivetti. - 4ª Ed. Revisada - São Paulo: Cultura Cristã, 2012. pág 436.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Apologética



É por demais frequente que irmãos e irmãs bem - intencionados entrem no meio da briga, ansiosos por enfrentar o inimigo, só para serem eles mesmos tomados ou massacrados perante espectadores animados. É por isso que nos é dito: "... estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós, fazendo-o, todavia, com mansidão e temor" (1Pe 3.15) com relação ao inquiridor.
Nessa passagem, a ênfase está sobre estar preparado.

Quando Paulo foi até o Areópago para apresentar as reivindicações do Cristianismo, em Atos 17, ele não o fez com um conjunto de argumentos reducionistas ou referências ao seu testemunho pessoal do que Deus havia feito por ele. Ele tampouco ignorou o contexto. Ao citar de memória a poesia e prosa de filósofos gregos seculares, Paulo edificou pontes de compreensão. Ele o fez, não ao confundir as coisas terrenas (a própria filosofia grega) com as celestiais (a verdade última sobre Deus e a revelação natural que os seus ouvintes possuíam, e então retirando a escada quando chegou à discussão das questões reservadas para a revelação especial (a Escritura). A revelação natural (nesse caso, a verdade que havia na filosofia grega) foi útil até certo ponto, mas para continuar a discussão e proclamar a verdade sobre Deus e a condição humana, o juízo e a salvação, o apóstolo teve que depender da revelação especial: o relato da obra e da morte e da ressurreição de Cristo, bem como o seu direito de julgar. Paulo entendeu e explorou a verdade da visão secular do mundo, mas julgou os erros a partir da Escritura.

Os que desconhecem a força daquilo que faz parte da escravidão do incrédulo nunca saberão como libertá-lo. Isso não quer dizer que todo cristão tenha que se tornar imediatamente um perito em todas as ramificações da sabedoria e do conhecimento da história humana, mas significa, sim, que o testemunho cristão não pode ser ingênuo. Ele não pode simplesmente ridicularizar a incredulidade.

Como já vimos, existem grandes riscos em ignorar a mente secular - não só porque, como disse Calvino, perdemos os dons de Deus distribuídos até mesmo aos incrédulos por sua graça comum, mas porque nós ficamos sem ter como saber a extensão na qual nós mesmos fomos formados, ainda que indiretamente, por essas tendências do pensamento secular. Quando lemos Pragmatism de James ou o tratado de Mills sobre o Utilitarismo, começamos a reconhecer algumas das forças que forjaram a nossa cultura e, portanto, o nosso próprio pensamento como cristãos. Não podemos nos divorciar do nosso tempo e lugar, do mesmo modo que um asiático ou um africano não pode se distanciar do seu contexto, e é ingenuidade pensar que simplesmente lemos a Bíblia sem nenhum antolho cultural. A fim de julgar as nossas idéias, temos que reconhecer duas coisas da melhor maneira que pudermos: as forças do mundo que formam os nossos pensamentos, e as verdades da Escritura, que corrigem os nossos pensamentos e revelam Deus e suas promessas de salvação para nós. Os que não se preocupam em ler livros seculares serão empobrecidos e suscetíveis à sedução sutil e indireta, enquanto os que não se preocupam em estudar com cuidado a Escritura perderão o seu único fio de prumo para julgar a verdade em contraposição ao erro, a crença em contraposição à incredulidade, o certo em contraposição ao errado. Os que conhecem a Escritura e a sua cultura têm a capacidade de reconhecer a verdade e rejeitar a falsidade quando a escutam ou lêem -  seja na literatura secular ou do púlpito.

Autor: Horton, Michael Scott
Fonte: O cristão e a cultura / Michael Scott Horton. [tradução Elizabeth Stowell Charles Gomes]. 2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. págs 61,62.

domingo, 21 de agosto de 2016

Cristo como a verdadeira imagem de Deus



Ao perguntarmos a respeito do que devemos entender por imagem de Deus, somos lembrados do fato de que, no Novo Testamento Cristo é chamado de imagem de Deus por excelência; ele é a "imagem do Deus invisível" (Cl 1.15). Se querermos, portanto, realmente saber como é a imagem de Deus no homem, devemos primeiro olhar para Cristo. Isso significa, entre outras coisas, que o fundamental na imagem de Deus não são qualidades tais como razão ou inteligência; mas pelo contrário, o amor, pois, mais do que tudo, o que se destaca na vida de Cristo é o seu maravilhoso amor. Em Cristo, portanto, vemos de forma clara o que está escondido em Gênesis 1, a saber: a imagem perfeita de Deus que o homem deveria ser.

Observando Jesus Cristo, percebemos haver uma dupla estranheza a respeito dele. Há, primeiro, a estranheza de sua divindade. Ele é o Deus-homem, aquele que se atreve dizer que ele e o pai são um - uma afirmação que fez os judeus o acusarem de blasfêmia (Jo 10.31-33). É aquele que perdoa pecados - algo que somente Deus pode fazer. É aquele que até ousa dizer: "Antes que Abraão existisse, EU SOU!" (Jo 8.58).

Mas há também a estranheza com relação à sua humanidade. Embora genuinamente humano, é ímpar em sua humanidade. É totalmente sem pecado. Sua obediência ao Pai é perfeita; sua vida de oração, incomparável; seu amor pelas pessoas, insondável. E, de repente, percebemos que essa estranheza nos faz sentir vergonha, porque ela nos diz o que todos nós deveríamos ser. A estranheza no Jesus humano é como um espelho colocado diante de nós; é uma estranheza exemplar, pois nos diz qual a vontade de Deus para cada um de nós.

Quando observamos mais detalhadamente a vida de Cristo, vemos que ele era, em primeiro lugar, inteiramente voltado para Deus. No começo de seu ministério, embora extremamente tentado pelo diabo, Jesus resistiu à tentação, em obediência ao Pai. Ele costumava passar noites inteiras em oração ao Pai. Ele disse, uma vez: "A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra" (Jo 4.34). Ao final de usa vida terrena, quando defrontava-se com o terrível sofrimento que haveria de suportar como Salvador de seu povo, ele orou: "Meu Pai, se possível, passa de mim esse cálice! Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres" (Mt 26.39).

Segundo, notamos que Cristo é inteiramente voltado para o próximo. Quando as pessoas lhe apresentavam suas necessidades, fossem elas de cura, de alimento ou perdão, ele estava sempre pronto a socorrê-las. Quando, exausto de uma longa jornada, Jesus descansava junto a um poço, esqueceu-se prontamente de sua própria fadiga para evangelizar uma mulher samaritana. A Zaqueu, Jesus disse: "Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido" (Lc 19.10). Noutra ocasião, Jesus disse aos seus discípulos: "Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos" (Mc 10.45). Certa vez, Jesus indicou qual é o maior amor que alguém pode demonstrar a outro: "Ninguém tem maior amor do que este: de dar sua própria vida em favor dos seus amigos" (Jo 15.13). Esse é aquele amor que Jesus mesmo revelou: ele deu a sua vida por seus amigos.

Terceiro, Cristo domina a natureza. Com uma ordem, Jesus acalmou a tempestade que ameaçava a vida dos seus discípulos no lago da Galiléia. Mais tarde, andou sobre as águas para mostrar o seu domínio sobre a natureza. Foi também capaz de proporcionar uma pesca maravilhosa. Multiplicou os pães e transformou água em vinho. Curou muitas doenças, expulsou muitos demônios, fez os surdos ouvirem, os cegos verem, os paralíticos andarem e, até mesmo, ressuscitou mortos.

Foram essas ações miraculosas uma evidência da divindade de Cristo ou revelações daquilo que Cristo poderia fazer segundo sua humanidade confiando em seu Pai nos céus? Não podemos separar as naturezas divina e humana de Cristo; como o Concílio de Calcedônia expressou, essas duas naturezas estão sempre unidas, sem confusão, mudança, divisão ou separação. Todavia, algumas afirmações bíblicas sugerem que Jesus realizou esses milagres segundo sua humanidade perfeita confiando no poder divino: "Se, porém, eu expulso demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o reino de Deus sobre vós" (Mt 12.28); "Varões Israelitas, atendei a estas palavras: Jesus, o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos sabeis" (At 2.22, do sermão de Pedro no Pentecoste).

Não se pode ser dogmático quanto a isso, no entanto. Jesus era o Deus-homem e, portanto, tudo o que fez, o fez como aquele que era, a um só tempo, divino e humano. Obviamente, não conseguimos fazer milagres como Jesus; não podemos acalmar a tempestade ou ressuscitar mortos. O que podemos, porém, é aprender da vida de Cristo que o domínio sobre a natureza é um aspecto essencial do exercício da imagem de Deus - e nós precisamos encontrar nosso próprio modo de exercê-lo.

Em suma, observando Jesus Cristo, que é a imagem perfeita de Deus, aprendemos que o exercício próprio da imagem incluiu o ser voltar-se para Deus, o voltar-se para o próximo e o domínio sobre a natureza.

Autor: Anthony Andrew Hoekema
Fonte: Criados à imagem de Deus. São Paulo : Editora Cultura Cristã, 2010.  págs 88, 89, 90.