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domingo, 21 de agosto de 2016

Cristo como a verdadeira imagem de Deus



Ao perguntarmos a respeito do que devemos entender por imagem de Deus, somos lembrados do fato de que, no Novo Testamento Cristo é chamado de imagem de Deus por excelência; ele é a "imagem do Deus invisível" (Cl 1.15). Se querermos, portanto, realmente saber como é a imagem de Deus no homem, devemos primeiro olhar para Cristo. Isso significa, entre outras coisas, que o fundamental na imagem de Deus não são qualidades tais como razão ou inteligência; mas pelo contrário, o amor, pois, mais do que tudo, o que se destaca na vida de Cristo é o seu maravilhoso amor. Em Cristo, portanto, vemos de forma clara o que está escondido em Gênesis 1, a saber: a imagem perfeita de Deus que o homem deveria ser.

Observando Jesus Cristo, percebemos haver uma dupla estranheza a respeito dele. Há, primeiro, a estranheza de sua divindade. Ele é o Deus-homem, aquele que se atreve dizer que ele e o pai são um - uma afirmação que fez os judeus o acusarem de blasfêmia (Jo 10.31-33). É aquele que perdoa pecados - algo que somente Deus pode fazer. É aquele que até ousa dizer: "Antes que Abraão existisse, EU SOU!" (Jo 8.58).

Mas há também a estranheza com relação à sua humanidade. Embora genuinamente humano, é ímpar em sua humanidade. É totalmente sem pecado. Sua obediência ao Pai é perfeita; sua vida de oração, incomparável; seu amor pelas pessoas, insondável. E, de repente, percebemos que essa estranheza nos faz sentir vergonha, porque ela nos diz o que todos nós deveríamos ser. A estranheza no Jesus humano é como um espelho colocado diante de nós; é uma estranheza exemplar, pois nos diz qual a vontade de Deus para cada um de nós.

Quando observamos mais detalhadamente a vida de Cristo, vemos que ele era, em primeiro lugar, inteiramente voltado para Deus. No começo de seu ministério, embora extremamente tentado pelo diabo, Jesus resistiu à tentação, em obediência ao Pai. Ele costumava passar noites inteiras em oração ao Pai. Ele disse, uma vez: "A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra" (Jo 4.34). Ao final de usa vida terrena, quando defrontava-se com o terrível sofrimento que haveria de suportar como Salvador de seu povo, ele orou: "Meu Pai, se possível, passa de mim esse cálice! Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres" (Mt 26.39).

Segundo, notamos que Cristo é inteiramente voltado para o próximo. Quando as pessoas lhe apresentavam suas necessidades, fossem elas de cura, de alimento ou perdão, ele estava sempre pronto a socorrê-las. Quando, exausto de uma longa jornada, Jesus descansava junto a um poço, esqueceu-se prontamente de sua própria fadiga para evangelizar uma mulher samaritana. A Zaqueu, Jesus disse: "Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido" (Lc 19.10). Noutra ocasião, Jesus disse aos seus discípulos: "Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos" (Mc 10.45). Certa vez, Jesus indicou qual é o maior amor que alguém pode demonstrar a outro: "Ninguém tem maior amor do que este: de dar sua própria vida em favor dos seus amigos" (Jo 15.13). Esse é aquele amor que Jesus mesmo revelou: ele deu a sua vida por seus amigos.

Terceiro, Cristo domina a natureza. Com uma ordem, Jesus acalmou a tempestade que ameaçava a vida dos seus discípulos no lago da Galiléia. Mais tarde, andou sobre as águas para mostrar o seu domínio sobre a natureza. Foi também capaz de proporcionar uma pesca maravilhosa. Multiplicou os pães e transformou água em vinho. Curou muitas doenças, expulsou muitos demônios, fez os surdos ouvirem, os cegos verem, os paralíticos andarem e, até mesmo, ressuscitou mortos.

Foram essas ações miraculosas uma evidência da divindade de Cristo ou revelações daquilo que Cristo poderia fazer segundo sua humanidade confiando em seu Pai nos céus? Não podemos separar as naturezas divina e humana de Cristo; como o Concílio de Calcedônia expressou, essas duas naturezas estão sempre unidas, sem confusão, mudança, divisão ou separação. Todavia, algumas afirmações bíblicas sugerem que Jesus realizou esses milagres segundo sua humanidade perfeita confiando no poder divino: "Se, porém, eu expulso demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o reino de Deus sobre vós" (Mt 12.28); "Varões Israelitas, atendei a estas palavras: Jesus, o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos sabeis" (At 2.22, do sermão de Pedro no Pentecoste).

Não se pode ser dogmático quanto a isso, no entanto. Jesus era o Deus-homem e, portanto, tudo o que fez, o fez como aquele que era, a um só tempo, divino e humano. Obviamente, não conseguimos fazer milagres como Jesus; não podemos acalmar a tempestade ou ressuscitar mortos. O que podemos, porém, é aprender da vida de Cristo que o domínio sobre a natureza é um aspecto essencial do exercício da imagem de Deus - e nós precisamos encontrar nosso próprio modo de exercê-lo.

Em suma, observando Jesus Cristo, que é a imagem perfeita de Deus, aprendemos que o exercício próprio da imagem incluiu o ser voltar-se para Deus, o voltar-se para o próximo e o domínio sobre a natureza.

Autor: Anthony Andrew Hoekema
Fonte: Criados à imagem de Deus. São Paulo : Editora Cultura Cristã, 2010.  págs 88, 89, 90.

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