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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Apologética



É por demais frequente que irmãos e irmãs bem - intencionados entrem no meio da briga, ansiosos por enfrentar o inimigo, só para serem eles mesmos tomados ou massacrados perante espectadores animados. É por isso que nos é dito: "... estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós, fazendo-o, todavia, com mansidão e temor" (1Pe 3.15) com relação ao inquiridor.
Nessa passagem, a ênfase está sobre estar preparado.

Quando Paulo foi até o Areópago para apresentar as reivindicações do Cristianismo, em Atos 17, ele não o fez com um conjunto de argumentos reducionistas ou referências ao seu testemunho pessoal do que Deus havia feito por ele. Ele tampouco ignorou o contexto. Ao citar de memória a poesia e prosa de filósofos gregos seculares, Paulo edificou pontes de compreensão. Ele o fez, não ao confundir as coisas terrenas (a própria filosofia grega) com as celestiais (a verdade última sobre Deus e a revelação natural que os seus ouvintes possuíam, e então retirando a escada quando chegou à discussão das questões reservadas para a revelação especial (a Escritura). A revelação natural (nesse caso, a verdade que havia na filosofia grega) foi útil até certo ponto, mas para continuar a discussão e proclamar a verdade sobre Deus e a condição humana, o juízo e a salvação, o apóstolo teve que depender da revelação especial: o relato da obra e da morte e da ressurreição de Cristo, bem como o seu direito de julgar. Paulo entendeu e explorou a verdade da visão secular do mundo, mas julgou os erros a partir da Escritura.

Os que desconhecem a força daquilo que faz parte da escravidão do incrédulo nunca saberão como libertá-lo. Isso não quer dizer que todo cristão tenha que se tornar imediatamente um perito em todas as ramificações da sabedoria e do conhecimento da história humana, mas significa, sim, que o testemunho cristão não pode ser ingênuo. Ele não pode simplesmente ridicularizar a incredulidade.

Como já vimos, existem grandes riscos em ignorar a mente secular - não só porque, como disse Calvino, perdemos os dons de Deus distribuídos até mesmo aos incrédulos por sua graça comum, mas porque nós ficamos sem ter como saber a extensão na qual nós mesmos fomos formados, ainda que indiretamente, por essas tendências do pensamento secular. Quando lemos Pragmatism de James ou o tratado de Mills sobre o Utilitarismo, começamos a reconhecer algumas das forças que forjaram a nossa cultura e, portanto, o nosso próprio pensamento como cristãos. Não podemos nos divorciar do nosso tempo e lugar, do mesmo modo que um asiático ou um africano não pode se distanciar do seu contexto, e é ingenuidade pensar que simplesmente lemos a Bíblia sem nenhum antolho cultural. A fim de julgar as nossas idéias, temos que reconhecer duas coisas da melhor maneira que pudermos: as forças do mundo que formam os nossos pensamentos, e as verdades da Escritura, que corrigem os nossos pensamentos e revelam Deus e suas promessas de salvação para nós. Os que não se preocupam em ler livros seculares serão empobrecidos e suscetíveis à sedução sutil e indireta, enquanto os que não se preocupam em estudar com cuidado a Escritura perderão o seu único fio de prumo para julgar a verdade em contraposição ao erro, a crença em contraposição à incredulidade, o certo em contraposição ao errado. Os que conhecem a Escritura e a sua cultura têm a capacidade de reconhecer a verdade e rejeitar a falsidade quando a escutam ou lêem -  seja na literatura secular ou do púlpito.

Autor: Horton, Michael Scott
Fonte: O cristão e a cultura / Michael Scott Horton. [tradução Elizabeth Stowell Charles Gomes]. 2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. págs 61,62.

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