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segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Inocentes Pequeninos?





"Desviam-se os ímpios desde a sua concepção, nascem e já se desencaminham, proferindo mentiras (Salmos 58:3)

Ao final do dia, quando nossos filhos ainda eram pequenos, eu costumava observá-los enquanto dormiam: estavam lá, respirando quase imperceptivelmente, relaxados no seu sossego, curtindo o "sono da inocência". Esta é a impressão do homem natural (e especialmente de um pai), que só enxerga aquilo que está diante de seus olhos (1 Samuel 16:7). Mas, que dizer do coração dessas crianças?


Usando as lentes da Bíblia, passamos a ver uma realidade mais sinistra: nossos filhos podem ser ingênuos, mas jamais inocentes. Assim como todos os homens, eles são culpados e depravados. Como Robert Murray McCheyne escreveu certa vez, mesmo nessa idade, a semente de todo tipo de pecado já está plantada em seus corações.


A verdade não se resume à possibilidade de nossas crianças se desviarem espiritual e moralmente, caso alguma coisa saia errado; muito pior que isso é a tendência para seguir esse caminho tortuoso, que já veio plantado nelas. A única coisa que falta para o trágico desfecho é elas darem vazão aos seus desejos carnais. A teologia reformada faz uso do termo "depravação total" para se referir a essa realidade. Como Louis Berkhoff expressou, essa depravação é: "(1) ... uma corrupção inerente que se estende a cada parte ... da natureza [humana], a todas as faculdades e capacidades tanto da alma como do corpo; e (2) que não há nenhum bem espiritual ... no pecador, mas somente perversão". (Systematic Theology, p. 247)


A depravação total de nossos filhos é uma doutrina que exige fé nas Escrituras. Nossos instintos naturais nos levam a olhar para os recém-nascidos como "tábuas rasas" morais e espirituais; como folhas em branco, prontas para que se escreva nelas uma vida de sucesso. E, ao que normalmente presumimos, essas páginas podem até ser manchadas, mas na sua essência sempre serão brancas.


Não é assim, de acordo com as Escrituras: "Desviam-se os ímpios desde sua concepção; nascem e já se desencaminham, proferindo mentiras." (Salmos 58:3), insiste o salmista. No entanto, até mesmo se essas palavras se referissem apenas a algumas pessoas, lutaríamos para minimizar o ensino de Davi, de que o fruto do pecado vem desde a raiz. A Bíblia diz que nós pecamos porque nossa natureza é corrompida.


Assim como esta verdade é aplicável ao ímpio; foi aplicada a Davi. Foi isso que Deus mostrou a Davi, ao usar o profeta Natã para repreendê-lo por causa de seu adultério com Bateseba e do assassinato de Urias (2 Samuel 11:12; conf. Salmos 51:5).


Este ensino não se trata de uma desculpa para as transgressões; é antes uma confissão de pecado.
A transgressão de Davi não foi um erro de percurso numa vida regrada, mas a expressão de um coração que era inerentemente doentio.


Como isso pode acontecer? Paulo responde a esta pergunta em Romanos 5:12-21, ao tratar da unidade da raça humana em Adão. O pecado entrou no mundo por meio dele e, como consequência, a morte também veio. Todos pecaram em Adão, pois ele era o representante de toda humanidade.


A prova desta realidade é observada no fato de que a morte alcança a todos e reina sobre todos.
Paulo acrescenta: "entretanto, reinou a morte desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da morte de Adão, o qual prefigurava aquele que havia de vir" (Rm 5:14); isto é, aqueles que não tinham recebido a revelação especial/verbal da vontade de Deus.


Paulo pode não estar pensando aqui exclusivamente dos infantes; entretanto, nenhuma classe de pessoas ilustra tão claramente esta terrível consequência da queda como fazem as crianças que morrem antes de serem capazes de compreender os desígnios de Deus.


Por que isto acontece? Definitivamente, porque a morte nos vem como herança que nosso representante (Adão) catastroficamente nos legou após a queda, e não simplesmente como resultado de causas naturais. Isto é que os cristãos primitivos sabiamente ensinavam aos seus filhos: "Na queda de Adão, todos nós pecamos". Por sua desobediência, todos nós também nos tornamos pecadores (Romanos 5:19). Como resultado de descendermos dele, compartilhamos de sua depravação desde os primeiros momentos de nossa existência. Nós somos imperfeitos desde a nossa concepção.


Num mundo que segue à deriva no mar da confusão moral e espiritual dos pais, a doutrina da depravação total de nossos filhos é verdadeiramente uma importante âncora. Os pais que compreendem seu significado reconhecem a sabedoria divina, mesmo quando Sua vontade é exposta da forma mais crua. Também reconhecem a importância de ensinar a lei de Deus no contexto da graça doada em Cristo por meio do Espírito Santo.


Deus não nos deu anjos, mas pecadores, para aperfeiçoar no caminho da santidade. Levando-se em conta que a situação é mais complicada pelo fato de que nós, os pais, somos também pecadores, é necessário que constantemente recorramos aos ensinamentos e diretrizes da Escritura. Eis algumas delas:


Reconheça que, espiritualmente falando, seus filhos são versões em miniatura de você mesmo.
Aprenda a pensar mais em termos de Adão e Cristo, pecado e graça. Isso por si só o ajudaria a perceber por que Deus lhe deu o mandamento de não irritá-los (Ef 4:4).


Ao educar seus filhos, não cometa o erro de endeusá-los (por seguir o princípio do "é proibido proibir") ou de se auto endeusar (ao dizer consigo mesmo: "terei muito orgulho dele/dela"). Em vez disso, esforce-se para conduzi-los no caminho da santidade, auxiliado pela graça de Deus.


Leve a sério a promessa da Palavra de Deus,de que Ele será o seu Deus e o Deus dos seus filhos.
Entretanto, se você aceita o batismo infantil, não cometa o erro de presumir que os filhos da aliança não precisam se arrepender e crer no Evangelho. Aliás, no batismo, reconhecemos a necessidade da lavagem da regeneração e colocamos nossos filhos sob as obrigações da Aliança: arrependimento dos pecados e fé em Jesus Cristo durante toda a vida.


Quando eles cometerem pecados repugnantes, nunca se esqueça de que a graça que há em Cristo é maior que a transgressão do seu coração somada à dos corações deles. Por causa de Cristo, há sempre um recomeço, até mesmo para aqueles cujo estilo de vida era a expressão máxima de um coração depravado. Isto foi o que Mônica descobriu após anos de intercessão por seu filho Agostinho.


Afinal de contas, "algumas de vocês eram assim" (1 Coríntios 6:11 - BLH), mas encontraram a graça por meio de Cristo.


Sinclair B. Ferguson 


http://www.monergismo.com/textos/depravacao_total/inocentes_pequeninos.htm

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

O alvorecer da reforma



O brilhante objeto no céu, depois do sol e da lua, é a estrela da manhã. Aparece cerca de uma hora antes do amanhecer. John Wycliffe (c. 1330-84) é muitas vezes chamado a estrela da manhã da reforma. E por uma boa razão, por sua vida brilhava como um precursor da reforma. Jan Hus (c. 1370-1415) trabalhou pela luz dessa estrela da manhã, mesmo que a luz maior da reforma estava prestes a amanhecer. Através de Wycliffe, Deus trouxe luz para as pessoas que moravam na escuridão,  - um dos quais era Hus. Hus corajosamente realizado sobre a polêmica que Wycliffe começou, a controvérsia sobre a autoridade final das Escrituras que logo engoliu todo o continente da Europa na reforma do século XVI. Na verdade Martinho Lutero (1483-1546), em seu debate com Johann Eck, mesmo declarou: "Eu sou um Hussite de fato".


Estes homens não eram de forma a fonte de luz; eles eram espelhos que refletiam a uma fonte de luz, a luz do mundo é Jesus Cristo. A palavra viva e ativa de Deus revela esta luz. Em sua soberania, Deus usou esses precursores da reforma para dirigir seu povo de volta à sua Palavra. Uma vez que a Escritura foi redescoberta, a luz da verdade de Deus começou a brilhar cada vez mais nos corações de seu povo, que, por sua vez, levaram à reforma.


Embora Wycliffe tenha morrido de morte natural, restos mortais foram desenterrados depois, queimados e espalhados. Por outro lado a Igreja Católica Romana queimou Hus na fogueira, mesmo que a ele foi prometido salvo-conduto para o dia de seu julgamento. Dizem que ele cantou um hino a Cristo quando as chamas engoliram seu corpo. Seus restos mortais, como de Wycliffe, se espalharam. No entanto, a escuridão não poderia dissipar a luz do mundo. Esta luz, longa obscurecida mas ainda brilhando, logo amanheceu sobre a Europa de novo e, posteriormente, em todo o resto do mundo.

Em sua vida e morte, Hus não apontou para si mesmo, mas para a Palavra de Deus como nossa única autoridade infálivel de fé e vida. A Palavra de Deus proclama a luz do Evangelho - a boa notícia de Jesus Cristo. A mensagem de Hus era simples: para saber a verdade, a Igreja deve ir à fonte da verdade sagrada a própria Escritura. Eles imploraram a Igreja para retornar à revelação divina, o texto original da Sagrada Escritura pelo qual o Espírito Santo traz a vida e a liberdade através da luz do Evangelho.

Como cristãos, sabemos que existe apenas uma única verdadeira fonte de luz, e o Espírito Santo continuará a dissipar a escuridão nos corações do povo de Deus através de sua Palavra. E um dia, quando Cristo retornar e consumar seu reino. Ele vai transformar tudo. Como vivemos como cristãos no século XXI, somos chamados a viver Coram Deo, ou seja, perante a face de Deus, como nós carregamos a mesma tocha flamejante que Wycliffe, Hus, e Lutero e transportada como nós corajosamente vamos proclamar a luz do mundo para um mundo escuro que está morrendo.

Burk Parsons

http://www.ligonier.org/learn/articles/dawn-reformation/

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Santidade





Há uma palavra simples, todavia profunda, que ocorre novecentas vezes na Bíblia. Você a encontra primeiramente em Gênesis, quando somos informados como Deus criou o céu e a terra. Você a encontra pela última vez no capítulo final da Bíblia, onde nos é dito sobre a criação de um novo céu e de uma nova terra por Deus. Um livro inteiro, Levítico, é devotado ao assunto desta palavra.

 Apesar disso, esta palavra é estranhamente negligenciada hoje. Embora ela descreva a exclusividade de Deus e o chamado de todos os Seus filhos, ela é amplamente ignorada.
 Esta pequena, todavia maravilhosa, palavra é santo. Entre outras palavras, santo, santificar e santificação são obtidas de sua raiz.

 O que significa santo, santidade? Qual é o chamado bíblico à santidade? Como se deve praticar a santidade? Por que as igrejas necessitam tão desesperadamente da santidade em nossos dias?
Dividamos nosso assunto em cinco seções: (1) O que Santidade é: Eliminando as Concepções Erradas. (2) Santidade na Escritura: Ser separado. (3) Santidade na Teologia: Santificação. (4) Santidade na História: O Entendimento da Igreja. (5) Santidade na Prática Hoje: A Maior Necessidade da Igreja e Nossa.

 O que é santidade: Eliminando concepções erradas

Santo e santidade são termos que levam a uma considerável concepção errada. Para alguns, a palavra santo parece arcaica; imaginam algo antiquado e retrógrado. Para outros, santidade cheira a legalismo moralista; isto é, santidade demanda uma longa lista de proibições. De pessoa para pessoa, de grupo para grupo, esta lista variará, mas uma lista sempre existirá onde quer que a santidade esteja. Ainda para outros, a santidade é associada com uma repugnante atitude de “sou mais santo que você”. Eles a vêem como uma ferramenta desprezível com a qual se implementa a superioridade arrogante. Finalmente, para alguns, santidade denota uma perfeição inatingível.
Eles vêem a santidade como uma doutrina desalentadora que não prega nada senão o pecado e exige uma perfeição radical.

Embora haja fragmentos de verdade em certos aspectos destas concepções, todas estas idéias falham em expressar o verdadeiro conceito de santidade. De acordo com o uso original da palavra, santidade em todas suas formas (isto é, quando aplicada a qualquer pessoa, lugar, ocasião ou objeto) implica o ser separado do uso comum secular para o propósito de ser devotado a Deus.

Santidade significa ser separado. Mas o que significa o ser separado? Duas coisas. O sentido negativo de ser separado é o chamado da santidade para nos separarmos do pecado. O sentido positivo de ser separado é o chamado da santidade para nos consagrarmos a Deus. Estes dois conceitos – separação do pecado e consagração (ou separação) a Deus – compreendem a palavra santidade. Quando combinados, estes dois conceitos fazem a santidade muito compreensiva. De fato, a santidade cobre o todo da vida. Todas coisas, nos diz Paulo, devem ser santificadas: “Porque toda a criatura de Deus é boa, e não há nada que rejeitar, sendo recebido com ações de graças. Porque pela palavra de Deus e pela oração é santificada” (1 Timóteo 4:4,5).

O chamado para santidade é um chamado absoluto, exclusivo. Deus nunca nos chama para Lhe dar um pedaço de nossos corações. O chamado para santidade é um chamado para todo o nosso coração: “Filho meu, dá-me o teu coração” (Provérbios 23:26).

 O chamado para a santidade é holístico. Isto é, nossa vida inteira está envolvida – corpo e alma, tempo e eternidade. E também em cada esfera de nossa vida na qual somos chamados a atuar: em privacidade com Deus, na confidencialidade de nossos lares, na competição de nosso trabalho, nos prazeres da amizade social, bem como na adoração dos domingos. O chamado à santidade é um chamado de sete dias por semana e de 365 dias por ano. Ele é radicalmente compreensivo; como tal, o chamado à santidade pertence à essência da fé e da prática religiosa.

Assim, você pode ver quão erradas são as concepções erradas de “arcaísmo, legalismo e superioridades” com respeito à santidade. A santidade nunca se apresenta na Escritura como um conceito farisaico com uma lista sem fim de “fazer” e “não fazer” combinada com uma atitude de justiça própria. Pelo contrário, a santidade é um compromisso para toda a vida de nos separarmos para o senhorio de Jesus Cristo. A santidade não é uma lista, mas um estilo de vida. Santidade significa viver para Deus. Santidade é a religião por excelência. É a relação com Deus – uma relação pactual, certamente – manifestada pela graça em fé e prática, através de todas as esferas da vida.

 Isto se tornará mais cristalino à medida que examinar o conceito da Escritura de santidade.

 Santidade na Escritura: Ser separado

 No Antigo Testamento, se fala de santidade primariamente com relação a Deus. “O SENHOR nosso Deus é santo” (Salmos 99:9). Santidade é a própria natureza de Deus – o próprio fundamento de Seu ser. Três vezes santo, intensamente santo é o Senhor (Isaías 6:3). Deus é santidade. Santidade é a coroa permanente de Deus. Ela é o “brilho de todas as Suas perfeições”, como os Puritanos costumavam dizer. Santidade é o pano de fundo para tudo mais que a Bíblia declara sobre Deus.

 O conceito de santidade divina do Antigo Testamento apresenta três verdades cardinais sobre Deus: Primeiro, denota a separação ou a diferença de Deus de toda a Sua criação. A palavra hebraica mais comum para santo é qadosh, a qual tem como seu significado mais fundamental o ser separado ou apartado. Deus está acima e além de toda a Sua criação. Nada é como Ele. “A quem, pois, fareis semelhante a Deus, ou com que o comparareis?” (Isaías 40:18). “O SENHOR é Deus; nenhum outro há senão Ele” (Deuteronômio 4:35,39; 1 Reis 8:60; Isaías 45:5,6,14,18,21,22; 46:9; Joel 2:27).

 Em segundo lugar, denota a total “separação” de Deus de tudo que é impuro ou mal. Deus é a perfeição moral. Sua santidade é total retidão e pureza (Isaías 5:16). Seus olhos são muito puros para contemplar o mal (Habacuque 1:13).

 Em terceiro lugar, por causa de Deus ser separado por natureza de todo pecado, Ele é inacessível para os pecadores, aparte de um sacrifício santo (Levítico 17:11; Hebreus 9:22). Somente com um sacrifício sangrento e vivificar o Deus santo pode habitar justamente entre os pecadores (porque o salário do pecado é a morte, Romanos 6:23) – e isto por causa de Cristo, o Sacrifício que haveria de vir. Em e através da vinda do Messias, o único e perfeito Deus de Israel pode viver entre o Seu povo escolhido: “Eu sou Deus e não homem, o Santo no meio de ti” (Oséias 11:9). Esta aparente contradição – o Santo em vosso meio – é explicável somente através de Jesus Cristo, o sacrifício apontado por Deus, porque o Santo vê somente um Cristo perfeito quando Ele olha para o Seu povo (cf. Catecismo de Heidelberg, Q. 60).

 Deste triplo conceito de Deus como o Santo, se deduz naturalmente que tudo associado com Deus (isto é, fenômeno divino) deve ser também santo. Por conseguinte, o descanso instituído é “um repouso santo” (Êxodo 16:23); Sua morada é o “santo céu” (Salmos 20:6); Ele se senta num “santo trono” (Salmos 47:8); Sião é Seu “santo monte” (Salmos 2:6); Seu próprio Nome é santo (Êxodo 20:7). Assim, também, Sua igreja é chamada a ser uma “santa assembléia” (Êxodo 12:16) e Seu povo do pacto um “povo santo”: “Porque povo santo és ao SENHOR teu Deus; o SENHOR teu Deus te escolheu, para que lhe fosses o seu povo especial, de todos os povos que há sobre a terra” (Deuteronômio 7:6).

 Israel, o povo do pacto de Deus, é chamado à santidade por meio de uma santa separação do pecado (Deuteronômio 7:6), através de uma santa consagração a Deus (Levítico 11:44), de uma santa adoração a Deus (cf. a maior parte de Levítico), e de uma santidade ou limpeza interior
 (Levítico 16:30; Salmos 24:3-4).

 O Novo Testamento

 O Novo Testamento ressalta todo o ensino do Antigo Testamento sobre a santidade. Ele desenvolve uma maior ênfase, contudo, sobre os temas da santa Trindade e dos santos consagrados. A santidade é sempre atribuída a uma Pessoa da Deidade. O Deus de amor é o Pai Santo (João 17:11); Jesus Cristo é o Santo de Deus (Marcos 1:24; João 6:69); e o Espírito de Deus é denominado Santo noventa e uma vezes!

 Em termos de santos, o Novo Testamento destaca três temas. Primeiro, ele acentua a dimensão ética da santidade. A ênfase recai sobre o interno em lugar da santidade ritual. Básico para isto é o testemunho do próprio Jesus, que como o Filho do homem viveu uma vida de completa santidade, porque Ele “não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano” (1 Pedro 2:22). Ele é “santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores” (Hebreus 7:26). Como resultado de Sua obra redentora, os crentes nEle são declarados justos e entram na santidade: “Na qual vontade temos sido santificados pela oferta do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez por todas” (Hebreus 10:10).

 Em segundo lugar, o Novo Testamento enfatiza o caráter normativo da santidade entre os crentes. A santidade pertence a todos os verdadeiros seguidores de Cristo. Um termo comum para todos os crentes é santo (hagioi), geralmente traduzido por “santo”. Santos, portanto, não se refere a pessoas preeminentes na santidade, mas ao crente típico que é santo em Cristo (1 Coríntios 1:30). Santidade é uma realidade interna para todos os que estão unidos com Cristo. Embora um filho de Deus sinta freqüentemente quão ímpio ele é em si mesmo e possa não ousar se chamar um “santo”, Deus vê todos os Seus eleitos como santos e santificados em e através da perfeita obediência, ativa e passiva, de Seu Filho amado. Por amor de Cristo, seu estado é santo diante de Deus e sua condição é feita santa pelo Espírito que habita neles.

 Em terceiro lugar, o Novo Testamento contempla a santidade como transformadora de toda a pessoa: “E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso SENHOR Jesus Cristo” (1 Tessalonicenses 5:23). Embora esta “santidade completa” esteja além do alcance do crente nesta vida, ela sempre continua sendo seu objetivo e oração. Ele se deleita em buscar a santidade e procura o “aperfeiçoamento da santidade no temor de Deus” (2 Coríntios 7:1).

 Santidade na Teologia: Santificação

 Santidade na história: O entendimento da Igreja

 Santidade na prática hoje: A maior necessidade da Igreja e nossa

Joel Beeke

Tradução livre: Felipe Sabino de Araújo Neto
Cuiabá-MT, Junho de 2004.

sábado, 22 de agosto de 2015

Por que o justo sofre?



No âmago da mensagem do livro de Jó, acha-se a sabedoria que responde à questão a respeito de como Deus se envolve no problema do sofrimento humano. Em cada geração, surgem protestos, dizendo: "Se Deus é bom, não deveria haver dor, sofrimento e morte neste mundo."

Com este protesto contra as coisas ruins que acontecem a pessoas boas, tem havido tentativas de criar um meio de calcular o sofrimento, pelo qual se pressupõe que o limite da aflição de uma pessoa é diretamente proporcional ao grau de culpa que ela possui ou pecados que comete.

No livro de Jó, o personagem é descrito como um homem justo; de fato, o mais justo que havia em toda a terra. Mas Satanás afirma que esse homem é justo somente porque recebe bençãos de Deus. Deus o cercou e o abençoou acima de todos os mortais; e, como resultado disso, Satanás acusa Jó de servir a Deus somente por causa da generosa compensação que recebe de seu Criador.

Da parte do maligno, surge o desafio para que Deus remova a proteção e veja que Jó começará a amaldiçoá-lo. À medida que a história se desenrola, os sofrimentos de Jó aumentam rapidamente, de mal a pior. Seus sofrimentos se tornam tão intensos, que ele se vê assentado sobre cinzas, amaldiçoando o dia de seu nascimento e clamando com dores incessantes. O seu sofrimento é tão profundo, que até sua esposa o aconselha a amaldiçoar a Deus, para que morresse e ficasse livre de sua agonia. Na continuação da história, desdobram-se os conselhos que os amigos de Jó lhe deram - Elifaz, Bildade e Zofar. O testemunho deles mostra quão vazia e superficial era a sua lealdade a Jó e quão presunçosos eles eram em presumir que o sofrimento indescritível de Jó tinha de fundamentar-se numa degeneração radical do seu caráter.

Eliú fez discursos que traziam consigo alguns elementos da sabedoria bíblica. Todavia, a sabedoria final encontrada neste livro não provém dos amigos de Jó, nem de Eliú, e sim do próprio Deus. Quando Jó exige uma resposta de Deus, Este lhe responde com esta repreensão: "Quem é este que escurece os meus desígnios com palavras sem conhecimento? Cinge, pois, os lombos como homem, pois eu te perguntarei, e tu me farás saber" (Jó 38:2-3). O que resulta desta repreensão é o mais vigoroso questionamento já feito pelo Criador a um ser humano. A princípio, pode parecer que Deus estava pressionando Jó, visto que Ele diz: "Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra?" (v. 4) Deus levanta uma pergunta após outra e, com suas perguntas, reitera a inferioridade e subordinação de Jó. Deus continua a fazer perguntas a respeito da habilidade de Jó em fazer coisas que lhe eram impossíveis, mas que Ele podia fazer. Por último, Jó confessa que isso era maravilhoso demais. Ele disse: "Eu te conhecia só de ouvir, mas  agora os meus olhos te vêem. Por isso, me abomino e me arrependo no pó e na cinza" (42:-5-6).

Neste drama, é digno observar que Deus não fala diretamente a Jó. Ele não diz: "Jó, a razão por que você está sofrendo é esta ou aquela". Pelo contrário, no mistério deste profundo sofrimento, Deus responde a Jó revelando-se a Si mesmo. Esta é a sabedoria que responde à questão do sofrimento - a resposta não é por que tenho de sofrer deste modo particular, nesta época e circunstância específicas, e sim em que repousa a minha esperança em meio ao sofrimento. A resposta a essa questão provém claramente da sabedoria do livro de Jó: o temor do Senhor, o respeito e a reverência diante de Deus, é o princípio da sabedoria. Quando estamos desnorteados e confusos por coisas que não entendemos neste mundo, não devemos buscar respostas específicas para questões específicas, e sim buscar conhecer a Deus em sua santidade, em sua justiça e em sua misericórdia. Esta é a sabedoria de Deus que se acha no livro de Jó.

R. C. Sproul


http://bit.ly/13mU358

sábado, 15 de agosto de 2015

Vivendo de aparência



"Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia.
Assim vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estão cheios de hipocrisia e de iniquidade." (Mateus 23:27-28)


É verdade que Deus está interessado em nossa sinceridade religiosa, entretanto, muitos religiosos serão surpreendidos ao morrer, pois a vida que levaram antes da morte não os pôde livrar do inferno, isso porque o que salva o homem da condenação eterna não é a sua filiação a alguma religião em particular, a observação de preceitos e conduta rigorosos, ou uma intensa vida de caridade, mas a sua legítima comunhão com Deus iniciada no arrependimento e na conversão e desenvolvida pela prática da Palavra de Deus.


             As aparências não podem resistir ao julgamento de Deus.

"Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas".

Sete ais em forma de advertência foram dirigidos por Cristo a um grupo específico de religiosos judeus. Os escribas eram os "homens das letras" ou os doutores da lei, pois eles se dedicavam quase que exclusivamente ao estudo e ensino da Torá. Os fariseus se compreendiam o maior e mais influente partido e seita religiosa dos judeus daquela época. Os escribas engrossavam fileiras com os fariseus e estes ao lado do partido rival dos saduceus representavam a cúpula ou os dirigentes espirituais do povo israelita.

O que é farisaísmo? É ser um religioso austero, rigoroso em determinados aspectos da sua prática religiosa, e condescendente ou frouxo em uma área de importância capital, por exemplo, nos costumes (vestimentas, hábitos alimentares etc.) mostra-se impecável, mas relapso na doutrina bíblica, na mordomia do dinheiro, no compromisso missionário, na assistência aos desvalidos, na vida de oração, no amor fraternal etc. Em outras palavras, o indivíduo apenas formal, superficial na sua prática religiosa é o protótipo perfeito do moderno fariseu.

Na visão de Cristo, ser fariseu hipócrita é o mesmo que ser um "guia cego" ou alguém que não conhece a direção certa da vida, mas insiste em orientar ou liderar outras pessoas. Está em vista, também, a situação daqueles crentes que em matéria de fé fazem somente o que lhes convém, e com frequência coam um mosquito e engolem um camelo, ou seja, destacam coisas insignificantes (por exemplo: suborno, mentira, vícios sexuais etc.). Em outras palavras, o "crente fariseu" é sempre subjetivo, hipotético, cheio de "boas" intenções, mas nada realmente concreto.

Podemos afirmar que a essência do farisaísmo é a hipocrisia. Esse termo significa:"Vício de caráter manifestado por aquele que apresenta ser o que não é, ou diz sentir o que não sente, mormente em virtude e devoção" (Dicionário Sacconi). O contrário exato de hipocrisia é sinceridade. O original grego (hupokrites) traz a idéia de um ator de palco, portanto, ser hipócrita é o mesmo que fingido, dissimulado, falso ou aquele que representa ser uma coisa, mas é outra. 
Um pregador que não vive o que prega encarna o tipo de hipócrita que Cristo condena nessa passagem.

"... porque sois semelhantes aos sepulcros caiados".

A comparação é fortíssima, para não dizer trágica, pois segundo a lei mosaica, um judeu praticante não poderia nem tocar um cadáver, porque isso o tornava cerimonialmente imundo e no caso em tela Jesus diz que eles são parecidos com um zumbi ou "defunto maquiado". Por fora parecem vivos e saudáveis, mas na verdade estavam carcomidos de "gangrena moral". Eles mantinham uma aparência religiosa (vestes, barba, linguagem etc.) impecável, mas no íntimo, nas intenções, eram baixos, vis, cruéis, lascivos, inescrupulosos.

Paulo apelida o cruel sumo sacerdote Ananias de "parede branqueada", porque este mandou que injustamente o socassem na boca. Essa expressão corresponde à mesma dita por Cristo, e lembra a preocupação dos religiosos da época com a contaminação cerimonial prevista na Lei mosaica.

"...vós exteriormente pareceis justos aos homens".

Manter uma vida religiosa de fachada, é o mesmo que auto-engano. Deus somente habita em corações desinfetados do pecado pelo sangue de Cristo. Religiosidade superficial é o mesmo que justiça própria ou salvação pelas obras, que à luz da Bíblia é impossível.

No versículo 25, Jesus fala qual é a verdadeira preocupação dos crentes fariseus: "limpar o exterior do copo", ou seja, manter as aparências, a reputação de ser espiritual e temente a Deus por conta de certas manifestações por causa da posição eclesiástica que ocupam ou da reputação que ostentam, entretanto não demonstram qualquer preocupação com o que Deus realmente pensa sobre eles. Na visão de Cristo, essas pessoas são hipócritas e iníquas. Esta última palavra é muito grave em se tratando de religiosos, pois o íniquo é o mesmo que um sem lei (anomos), desregrado ou perverso.

O perigo de ostentar algo que na realidade não somos é evidenciado no exato momento da provação, por exemplo, a parábola dos fundamentos ensinada por Cristo, nos revela que à semelhança da casa sobre a areia, o crente que vive de aparências pode sucumbir quando vier a tempestade. Além disso, sem a verdadeira consagração de vida não há poder para vencer as investidas do maligno.


Quem vive de aparências preocupa-se com a opinião alheia mais do que deve, e se engana a si mesmo. Deus vê não apenas o que está no exterior de cada um de nós, por essa razão, precisamos entender que só é possível agradá-lo se agirmos com sinceridade, absoluta transparência, reverência e santo temor. Está debaixo de terrível sentença o crente que insiste em viver de aparência religiosa.


Valter Bastos